No mês passado revi um filme não muito famoso que me marcou na juventude chamado Incubus (1966). Um filme de horror dirigido por um certo Leslie Stevens e protagonizado por um William Shatner pouco antes de virar o Capitão Kirk, como um homem numa ilha estranha que precisa lidar com as forças ocultas ali presentes. Uma descrição detalhada do plot poderia fazê-lo passar por um filme de horror dos anos 1930 ou 1970. História de danação, de seitas, da mulher como tentação, etc. A experiência de ver Incubus, porém, é muito peculiar, nada nele funciona como filme de gênero eficiente, o que supostamente deveria acontecer. Se o filme ganhou alguma fama ao longo dos anos, é por ser falado em esperanto. De fato, quando se procura ler sobre o filme, esse é o aspeto que a maior parte dos textos destaca, contudo isso não me parece das coisas mais interessantes que sobre ele se pode dizer. Ainda assim, não deixa de ser uma porta de entrada para o estranhamento que proporciona. Incubus é ao mesmo tempo uma experiência muito familiar e bastante particular.

Eu adorei Incubus quando o assisti com meus vinte e poucos anos. Foi-me apresentado pelo cineasta Carlos Reichenbach, um notório cultor de filmes peculiares que muito fez para divulgar títulos como este na cinefilia brasileira da minha geração. Cerca de duas décadas depois, a experiência do filme não se diluiu muito. Imaginei que olharia para ele com alguma distância, sem a excitação da juventude, mas pelo contrário, o caráter sedutor das suas imagens segue muito marcante. E me peguei questionando muito, tanto quando o vi, como nos dias seguintes, sobre o quão bom Incubus era. Se era um grande filme esquecido ou só um filme encantadoramente esquisito. Trata-se certamente de um filme bem irregular como drama, que apesar dos seus pouco mais de 70 minutos de duração, tem alguns tempos mortos, entediantes e cujas imagens são tão bonitas como por vezes alienantes. É o tipo de autoquestionamento que o cinéfilo por vezes retoma, mesmo que em si tenha pouca utilidade prática: este filme me impressiona por ele mesmo ou por soar tão distante do “normal”? Podemos às vezes superestimar filmes que fazem isso e, noutras vezes, tratá-los com superioridade. Me parecem impulsos opostos, mas compreensíveis. Quem assiste a muitos filmes, seja por ser crítico ou um cinéfilo compulsivo, às vezes se fascina muito pelo esotérico. Um crítico que escreve sobre nove filmes banais num mesmo mês pode dar atenção exagerada ao décimo que escapa um pouco do normativo.
Incubus não é um filme bom por ser um filme estranho, mas é evidente que suas excentricidades são parte do seu charme. Stevens estava longe de ser um zé ninguém que não sabia como fazer um filme e cujo charme vinha disso. Ele começou a carreira na televisão americana dos anos 1950, como vários cineastas daquela geração intermediária entre os últimos dias dos grandes estúdios e a Nova Hollywood, como Lumet e Frankenheimer. E alcançou alguma fama como criador da série The Outer Limits. Nos seus tempos de televisão, ele também forjou uma relação com Arthur Penn, para quem serviu de roteirista primeiro na tela pequena e depois no seu longa de estreia The Left Handed Gun (Vício de Matar, 1958). Seu longa de estreia, Private Property (Propriedade Privada, 1960), que eu nunca assisti, até teve críticas bastante positivas à época, pelo seu naturalismo e por ser bem franco sexualmente. Até ao começo dos anos 2000, era por esse filme que ele havia ficado famoso. Depois, com o boom do mercado de DVDs Incubus ganhou um certo culto graças a cinéfilos como eu (como frequentemente acontece com filmes de horror muito distintos).
O que me interessa na minha reação é este fascínio que o filme provoca e esta linha tênue entre o grande filme e um filme que existe fora do eixo. Importa dizer que o que talvez mais chamasse a atenção para Incubus, em 1966, fosse a forma como ele deglutia abertamente Bergman para usos nada nobres, algo que se destaca bem menos em 2026, já que é o tipo de coisa que esperamos de um filme de horror ambicioso contemporâneo. Revendo o filme agora, pensei muito mais em Jean Rollin, o cineasta francês cujo período mais famoso começou pouco depois de Incubus ter sido lançado. O tom etéreo, os tempos mortos e a obsessão por sexo são bem próximos. Apesar de, claro, Rollin ser um pervertido francês e Stevens, como bom americano, soar por vezes como alguém apavorado com o próprio tesão, a despeito da carga erótica de algumas das suas imagens.

Nos anos 1970 e começo dos 1980, quando Rollin estava no seu maior momento comercial (na medida em que era possível falar disso para alguém que dirigia pornografia paralelamente para pagar as contas), a reputação dele era a pior possível. Um cineasta de filmes lentos e desinteressantes, com gosto pelo gótico, vampiras nuas e uma obsessão pela relação entre desejo e morte. “Um dos piores cineastas do mundo”, lembro de escutar muitas vezes de cinéfilos mais velhos. Algumas dessas reclamações não eram falsas, Rollin era irregular e seus filmes por vezes podiam ser tediosos e repetitivos, mas sei também que poucos filmes podem ser tão tristes como La Morte vivante (1982) ou sedutores como La Rose de fer (A Rosa de Ferro, 1973). O que me chama a atenção, revisitando a reputação de Rollin, é que não existe lá grande diferença entre as críticas do passado e os elogios do presente. Os seus fãs destacam as mesmas coisas que seus detratores atacavam. Isto não é incomum entre cineastas de gênero com personalidade forte, quando se revisita o que se escreveu sobre os filmes do começo da carreira de David Cronenberg, nota-se algo muito similar.
O que mudou sobretudo é o contexto em que os filmes de Rollin foram recebidos. Hoje isso acontece em home video em coleções particulares e separado dos cinemas poeiras onde ele era mais um dos produtores de nudez e sangue dos anos 1970-80. A cinefilia atual valoriza bastante energia e atmosfera, a capacidade de um filme te instalar num clima. Coisas em que Rollin era tão bom quanto era ruim em “contar uma história boa e coerente”. O mesmo pode dizer-se de Incubus. O que era fora do tom nos anos 1960 e 1970, se tornou, quando o cinéfilo passou a ver estes filmes com frequência em casa, muito desejado.
Quando pensamos na apreciação de filmes como Incubus ou La Morte vivante, percebemos uma dificuldade da linguagem crítica para lidar com eles, somos por demais voltados para procurar as obras primas no lugar de um cinema torto e, por vezes, forçamos os melhores exemplares do segundo no primeiro, ou nos ressentimos deles pela sua recusa em funcionar nos termos habituais.
Em 1968, Andrew Sarris publicou nos Estados Unidos o que seria a bíblia da crítica autorista americana chamada The American Cinema. Uma tentativa de lidar com a totalidade do cinema americano entre The Birth of a Nation (O Nascimento de uma Nação, 1915) e 2001, a Space Odyssey (2001, uma Odisseia no Espaço, 1968). Um livro organizado numa série de verbetes sobre diretores separados em categorias que iam do melhor ao pior, e especialmente obcecado pela recepção crítica deles. É um esforço grande de intervenção sobre o cânone e muito bem sucedido nesses termos. A obsessão por categorias de Sarris soa estranha e datada hoje, apesar de compreensível no contexto de busca para estabelecer prioridades para a historiografia da época. O melhor achado do livro de Sarris é a terceira categoria (logo após as mais nobres Panteão e O Lado Distante do Paraíso), a qual ele conferiu o título expressive esoterica. Vale citar a definição de Sarris no começo do capítulo: “Tratam-se de diretores pouco reconhecidos, com estilos difíceis ou gêneros fora de moda, às vezes ambos. Suas virtudes mais profundas são frequentemente ofuscadas por idiossincrasias irritantes à primeira vista, mas são geralmente compensadas por sua seriedade e graça”.

Valeria facilmente para o cinema de Rollin ou para o filme de Stevens. Muito dos interesses revisionistas de cinefilia do século XXI passam por algo próximo deste esoterismo expressivo que Sarris localiza e me parece oferecer algumas ferramentas críticas úteis. O livro de Sarris, como já dito, está preocupado com uma ideia de cânone e, voltando para os grandes filmes (e para atacar aqueles que eles por vezes deviam desalojar), os filmes e realizadores ali colocados «são uma atração secundária, mas que ajudam a consolidar o fascínio e riqueza do cinema americano do período abordado.
Como mencionei antes, fui apresentado a Incubus pelo meu amigo Carlos Reichenbach, que era um grande cultor deste esoterismo, inclusive nos filmes que fez. Ele tinha uma coluna em sites, depois um blog e uma atividade como cineclubista, na qual com frequência apontava virtudes de filmes como Incubus. Você ia ao apartamento dele e ele mandava um “você precisa conhecer isso” e exibia uma cena perdida, geralmente muito bem filmada e expressiva, de um filme como este. Como realizador e espectador, ele sempre preferiu estes momentos de impacto e esta sensação geral de fascínio do que um grande filme redondo. Não deixava de se expressar numa linguagem cinéfila de grande apelo para jovens como eu.
Outro dia, ainda sob o impacto de rever Incubus, me aventurei a rever outro favorito de Reichenbach chamado Dementia (1955), dirigido por um desconhecido chamado John Parker, que nada mais filmou. Um filme de cerca de uma hora com imagens bastante agressivas, com um pé no noir e outro no horror e uma lógica de pesadelo. Me parece menos forte do que Incubus, talvez porque soe mais como um filme experimental com motivos narrativos reconhecíveis, talvez porque pessoalmente tenho menos interesse por algo que siga uma lógica de sonho/pesadelo do que pela opacidade lúdica/sedutora de Stevens. Parker usa o mesmo fotógrafo (William C. Thompson) que filmou os filmes mais famosos de Ed Wood, mas poucos tratariam Dementia como um mero filme vagabundo. A agressividade das suas imagens é inconfundível. Revê-lo me fez pensar um pouco nos limites de encarar cinema apenas assim, mas foi bom passar mais uma hora com ele.
Será Incubus um grande filme ou somente um filme muito estranho? Não sei e não acho que a resposta seja em si muito interessante. Seu fascínio certamente passa pelo que Sarris aponta, mas acredito que a sua permanência vai para lá disso. Menos um ponto fora da curva industrial, e mais uma fonte para imagens que por elas mesmas apresentam uma potência inegável.

